“Com coração de justiça, com senso de justiça”

Carolina Monteiro

Japão, 1975. Nasce em Izumo, próximo a Hiroshima, Takanori Arai (新井貴統). Para nós brasileiros, um japonês. Para os japoneses, um coreano — por ser neto de um. No Japão, descendentes de estrangeiros nascidos em solo japonês não têm direito à nacionalidade nipônica. A comunidade coreana no país é a segunda maior, perdendo apenas para a chinesa. Hoje há perto de um milhão de pessoas, etnicamente coreanas, que ainda não são reconhecidas como cidadãs japonesas.

Park continua a servir as pessoas, não mais com notícias, mas com comida de verdade. Ao fundo, a obra de construção do novo restaurante Lamen San, no Córrego Grande em Florianópolis

No coração do pequeno Takanori, uma ansiedade diária da infância: medo de ser descoberto. Não é como se tivesse feito algo errado, mas pelo fato de ser descendente de imigrantes — um “estrangeiro” no seu próprio país –, pois a qualquer momento outras crianças poderiam desprezá-lo pela sua origem ancestral. “Takanori, ele é um coreano!”, “achamos um coreano que cheira a alho!”, ele conta que seriam essas as palavras usadas para o ferir ao ter sua verdade revelada.

Na saída do ensino médio, ele decide fazer sua carreira no jornalismo. No Japão, a profissão é prestigiada e as redações dos jornais são muito concorridas (milhares de pessoas para dezenas de vagas). No entanto, não é necessário ter o ensino superior na área, é comum que seja uma formação diversa. A escolha do futuro jornalista foi a de concorrer em uma das mais importantes universidades do país, a Keio University, no curso de Política. Aprovado, começou a planejar sua matrícula e a ida para Tóquio.

Para a nova fase de vida, tirou também seu passaporte. Com ele em mãos para sua matrícula, aquela surpresa: lá havia outro nome, Park Chongju. O nome pelo qual foi chamado a vida toda foi dado para protegê-lo da xenofobia — algo muito comum no Japão. Os nomes coreanos se formam pelo sobrenome e nome, sendo que este último tem significado atribuído pelo ideograma escolhido para o representar: 朴鐘珠. Segundo ele, “Chong” significa sino, “Ju” significa preciosidade. Era a primeira vez que o lia.

No passaporte coreano se expressava a sua nacionalidade e o seu nome real. “Takanori Arai” dali em diante já não fazia sentido como identidade oficial. Ele tinha medo de um dia um colega na sala de estudo apontar e perguntar: ‘você é mesmo descendente coreano?’, e conta, sobre a comunidade de imigrantes asiáticos no Japão: “esse é um medo que todos nós tínhamos e ainda temos, por isso utilizamos nomes japoneses”. Mas se todos já soubessem que era coreano, se ele admitisse ser Chongju Park logo de início, não teria mais que esconder. “Queria aparecer com meu nome real, para mostrar a eles: ‘sou ser humano nada diferente de vocês’. Quis matar toda essa discriminação. Para fazer isso, precisava me mostrar.”

No segundo dia de aula, foi à administração e solicitou a mudança dos documentos. “A partir de hoje, eu posso me apresentar com meu nome!”, ele relembra o festejo, e bate palmas. Formado em Política pela Keio University em Tóquio, pesquisou história afro-americana na University of Missouri e é mestre em Jornalismo pela Boston University. Participou de muitas seleções para entrar em jornais do Japão. Não foi aceito por diversas razões, sendo o seu novo e sincero nome um dos motivos. Em 2004 ele foi escolhido, a muito custo, pelo Mainichi Shimbun, um dos jornais mais tradicionais do país, que existe desde 1922.

Segundo ele, o objetivo era de que cada matéria sua fosse assinada com o seu nome coreano, para que todos os japoneses vissem que um estrangeiro era seu próximo, e estava trabalhando para melhorar o Japão por todos. O Mainichi, por sorte ou destino, era um dos únicos jornais que ainda permitia a assinatura de reportagens. “Eu estava com o coração muito cheio de vontade de lutar, por causa da injustiça social”, ele conta.

Numa redação japonesa, os jornalistas no começo de carreira têm entrada no mesmo lugar, o primeiro a se fazer é passar até três anos trabalhando em ocorrências policiais. De lá, se aprovado, pode transitar entre departamentos. Um dos mais difíceis de alcançar é o de jornalismo internacional. Park, em 2010, foi indicado para participar do time de correspondentes.

Mesmo sem saber para que país iria, aceitou. As notícias internacionais têm um caráter especial no Japão, e exporia ainda mais a assinatura coreana nas reportagens. Foi assim que Park conheceu o Brasil, vindo para São Paulo cobrir a editoria de América Latina do Mainichi. Nas notícias diplomáticas teve até matéria de capa, como o acordo histórico entre Cuba e Estados Unidos, em 2015 — assinada por Chongju Park, o jornalista que ergueu um nome coreano, com orgulho, para o país inteiro ver.

No entanto, segundo ele, o perfil do jornalismo japonês é muito discreto e críticas são apagadas. Assim, o que ele via no Brasil e na América Latina que poderia mostrar um novo mundo ao Japão, e dar boas ideias para solucionar velhos problemas de lá. Esse desejo de mudança motivou pautas que nunca foram publicadas por lá. Ele foi percebendo que o jornalismo não poderia melhorar uma sociedade sem desejo de mudança.

Enquanto isso, na redação do Mainichi, mais nomes coreanos apareceram nas assinaturas. Mais estrangeiros foram admitidos nas seleções. Uma porta foi aberta pelo exemplo de vida, ainda que por tantas vezes textos não tenham sido publicados. Com quinze anos de serviço e sentimento de dever cumprido, Chongju Park deixa o jornal em outubro de 2017. Em dezembro do mesmo ano, deixa, também, o Japão.

Ele, sua esposa, Itsuko, e quatro filhos vivem hoje em Florianópolis. “Como vou deixar meus filhos crescerem com o nome Park no Japão?”, ele indaga. Para ele, antes ainda existia uma chance de o Japão melhorar no aspecto social, mas o cenário piorou. “O Japão é o 51º estado dos Estados Unidos”, provoca. Para essa declaração, explica que “depois da Segunda Guerra Mundial, foram feitas muitas coisas para reduzir a democracia”. Em termos de democracia e abertura do país, para ele, falta muito para o Japão se desenvolver. Pelo contrário, o Japão está cada vez mais autoritário e menos democrático.

A escolha de viver no Brasil vem de um critério curioso: o casal não queria viver em um país que tivesse um imperador. Uma cultura que aceita uma família real, segundo ele, é porque aceita que uma pessoa esteja acima das outras pela sua origem. Esse critério eliminou a Ásia e a Europa da lista, e no Brasil ele se sentiu à vontade com a mistura de povos, em vista da pluralidade.

Aqui, se estabeleceu com um restaurante, o Lamen San. Antes na Lagoa da Conceição, e agora em ponto próprio no bairro Córrego Grande, ainda sem data para abertura oficial. A pandemia foi um período difícil para manter os negócios, mas as vendas por entrega mantiveram caixa. Com receio de outras pandemias ou novas fases críticas da Covid-19, o casal decidiu comprar o espaço e não depender de aluguel.

Quem vê o Sr. Park, como é conhecido aqui, percebe que é japonês pela forma de andar e gesticular. Mas ao mesmo tempo, é um japonês um pouco alto para ser japonês. Afinal, de onde é? — talvez possam se perguntar. Para quem acha que ele abandonou o jornalismo ao deixar o Japão, engana-se. Park entende que o restaurante tem tudo a ver com jornalismo.

“Eu acho que o meu trabalho servindo na cozinha é também parte do jornalismo”, diz. A comparação vem do fato de seu restaurante ter práticas que defendem a pluralidade, qualidade de vida e democracia, assim como fez em seus textos. Nas receitas, cortou os aditivos, não há glutamato. Não serve bebidas que venham em latas e plásticos, apenas as que têm recipiente de vidro. Na cozinha, admitiu um trabalhador que possui transtorno do espectro autista. O novo endereço do Lamen San passou por reformas para receber crianças e pessoas com deficiência. O banheiro, agora, é unissex. “Essas ideias eu estou mostrando para dar influência aos meus clientes. É isso que eu gostaria de publicar. Escrever um artigo e servir o restaurante são a mesma coisa para mim, é o mesmo caminho.”

Park quer, uma vez por mês, reservar o restaurante para crianças órfãs ou de baixa renda para terem contato com a cultura asiática. “A criança tem muito a aprender antes de ser adulto. Eu quero dar essa oportunidade. Elas têm que conhecer as coisas com as quais não estejam acostumadas a fazer no Brasil, para poder saber respeitar a diferença de todos”. Ele espera que outros empresários tenham essa mesma iniciativa, a de apresentar as diferentes culturas a quem não tem acesso a elas. “Para mim, o jornalismo não é escrever ou tirar foto, para mim o jornalismo é ato com justiça. Com coração de justiça, com senso de justiça.”

“Então, poderia me perguntar: o que você valoriza? Como jornalista, como dono de restaurante? Eu valorizo o valor da democracia, valorizo os direitos do ser humano, as coisas que não conseguimos comprar com dinheiro”, conclui.

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Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da UFSC

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