Demissão de metade dos cobradores na pandemia provoca acúmulo de funções para motoristas de coletivos de Florianópolis

A cada dez viagens, seis não têm mais cobradores. Comissão formada pela Prefeitura e sindicatos patronal e laboral estuda criar nova função na Capital, enquanto intermunicipais vivem incógnita

Por: Felipe Bottamedi

Crédito: Felipe Bottamedi

Quando Florianópolis atravessava um dos piores períodos da pandemia da Covid-19, o transporte coletivo da Capital começou gradualmente a perder um dos seus principais profissionais: o cobrador de ônibus. Desde maio de 2021, após acordo entre a Prefeitura de Florianópolis e os sindicatos patronal e laboral — Sindicato das Empresas de Transportes Urbano de Passageiros do Município de Florianópolis (Sintuf) e Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Urbano da Grande Florianópolis (Sintraturb), respectivamente –, começaram a ser retirados dos veículos os trabalhadores que, além de cobrar as passagens, também fiscalizavam as portas de saída e de entrada dos veículos, amparavam os motoristas nas manobras, auxiliavam pessoas com deficiência e orientavam os passageiros.

A remoção dos profissionais ocorreu após a demissão de metade de todo o quadro de cobradores que atuavam na Grande Florianópolis em 2020. Naquele ano, somente na Capital, 40% da categoria perdeu o emprego, segundo o Sintraturb. Os prejuízos financeiros da pandemia da Covid-19 foram usados como justificativa também para demitir metade de todos os motoristas que atuavam na Capital. Dentre os condutores que perderam o trabalho, 30% foram recontratados. Já entre os cobradores, nenhuma recontratação foi feita, conforme o sindicato. A solução, para alguns dos que não perderam emprego até então, foi assumir funções administrativas ou como motoristas — tendo que aprender a dirigir ônibus. Acordo recente entre os sindicatos proibiu a demissão dos profissionais até maio de 2023.

O motivo para se manter o desligamento gradativo dos cobradores nos ônibus, segundo o secretário de Mobilidade e Planejamento Urbano de Florianópolis, Michel Mittmann, é o crescente desuso de cédulas de dinheiro: os passageiros estão optando cada vez mais pelo uso dos cartões de integração no lugar das notas e moedas. No dia 8 de agosto uma comissão foi instituída reunindo representantes dos trabalhadores, da prefeitura e das empresas para analisar o período de um ano e meio sem cobradores nos ônibus. Até o fechamento desta reportagem, apenas duas reuniões haviam sido realizadas. “A gente não nega, vemos alguns problemas que precisam ser contornados”, reconhece o secretário diante da situação enfrentada pelos trabalhadores.

Em agosto deste ano, a ausência dos cobradores já atingia mais da metade de todas as viagens do transporte urbano realizadas na Capital. Dados da Prefeitura de Florianópolis mostram que 60,5% das jornadas em dias úteis não são mais realizadas com esses profissionais. De segunda a sexta-feira, diariamente são realizadas 7.018 viagens, destas 6.111 são de linhas convencionais não diretas, ou paradoras — ficando de fora as linhas diretas entre terminais e as executivas . Hoje, a cada dez viagens das paradoras, os passageiros não encontram cobradores em seis delas, em números específicos quase 3700 viagens têm somente motorista.

Apesar das jornadas mais exaustivas, Marlise avalia que a transformação no ambiente de trabalho a propiciou realizar um sonho contigo: virar condutora - Crédito: Felipe Bottamedi

“A cobradora está aqui”

Marlise de Oliveira foi cobradora de ônibus por 16 anos. Hoje ela trabalha no banco da frente, conduzindo o veículo, enquanto o antigo assento que ocupava permanece vazio. “Ainda perguntam: ‘onde está a cobradora?’. Eu brinco e respondo ‘está aqui’”, conta aos risos a motorista. Da manhã até o início da tarde, nos dias úteis, ela conduz sete viagens de quatro linhas: Carvoeira Norte e Sul; Pantanal Norte e Sul, que também atendem passageiros em pontos distribuídos dentro e no entorno do campus central da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Com a extinção progressiva da antiga profissão, a Empresa Florianópolis de Transportes Coletivos (Emflotur) — uma das cinco empresas de transporte coletivo que formam o Consórcio Fênix –, onde Marlise trabalha, foi uma das que promoveu a transição dos cobradores que sabiam dirigir para a função de condutores. Ali, quem não tinha habilitação foi transferido para outro setor da empresa ou permaneceu nas vagas remanescentes da função. Marlise realizou cursos e conseguiu habilitação para se tornar motorista, junto a outros dois colegas. Ela completou um ano como motorista em setembro. Para atuar como motorista-cobradora, Marlise teve um incremento salarial de R$ 400,00.

“Sinto muita dificuldade nos horários de pico. Falta quem me ajude a fiscalizar as portas, pois quando o ônibus está cheio perdemos a visão das entradas”, enfatiza. Das sete viagens que realiza, as linhas das primeiras horas da manhã e do horário do almoço ficam abarrotadas, principalmente com trabalhadores e estudantes: os passageiros se amontoam no corredor e “impedem” que a motorista controle os fundos do veículo pelos três espelhos instalados na frente. Às vezes, as portas traseiras não abrem, obrigando o passageiro a berrar ao condutor. “É muita coisa pra cuidar. Precisa orientar o passageiro, dar o troco, cuidar do trânsito. É tumultuado”, desabafa a condutora.

Há também as viagens mais tranquilas, as quais, para Marlise, os motoristas conseguem dar conta. Às 9h40 de uma quarta-feira, durante todo o trajeto da linha Pantanal Norte, por exemplo, ninguém ficou de pé e somente três passageiros precisaram pagar a passagem em dinheiro. “Neste horário as pessoas utilizam o transporte para ir ao hospital, para passeio”, detalha. A atenção da condutora, em trajetos como esse, se divide principalmente entre o trânsito e o atendimento aos idosos. Nesse dia, um senhor que sentava no assento prioritário perguntava constantemente informações sobre locais onde descer e qual ônibus pegar em seguida. “Eles têm mais dificuldade para se locomover. Às vezes não conseguimos dar a atenção que todo usuário merece. A pessoa me pergunta alguma coisa, mas estou dando o troco e cuidando do trânsito. É bastante coisa”, pontua.

Cerca de 60,5% das viagens em dias úteis não contam mais com cobradores, segundo dados da prefeitura de Florianópolis — Crédito: Felipe Bottamedi

O momento de mais ansiedade acontece quando ela precisa atender passageiros cadeirantes. “É nessa hora que eu fico na tensão. Para atendê-los, preciso descer do ônibus, acionar a plataforma e colocar o passageiro. Quando eu tinha uma dupla, o cobrador coordenava o elevador, enquanto o motorista auxiliava, vendo se a cadeira entrou direito, se tinha risco”, ressalta.

Marlise avalia que a transformação que vivencia no trabalho traz simultaneamente desafio e realização. “Ser motorista é concretizar um sonho. Apesar de ter feito curso, nas outras empresas onde trabalhei sempre foi difícil ser condutora pelo fato de eu ser mulher”, revela. Ela torce para que a capacitação como condutora permita que sejam ampliadas as oportunidades no mercado de trabalho. “Como cobrador, não desmerecendo a profissão, são poucas as oportunidades. Se a pessoa deixa a função, onde vai trabalhar?”.

Não é só cobrar passagens

Após trabalhar por anos como operadora de caixa, Jeyce Dimila Rodrigues da Fonseca virou cobradora em meio à pandemia da Covid-19, pois a rede de supermercados onde trabalhava faliu. Deixou um local de trabalho em crise para embarcar em uma profissão também em crise. Durante um mês trabalhou com Marlise, mas hoje atua como cobradora ferista, cobrindo o recesso de férias dos profissionais que atuam em trajetos dos coletivos pelos morros da Capital. Nesses locais, a presença de cobradores é necessária tendo em vista os cuidados e as dificuldades que os motoristas enfrentam na direção dos ônibus. Também é priorizada a presença desses trabalhadores nas viagens que costumam ter mais pagamento em dinheiro, conforme levantamento da Prefeitura de Florianópolis.

“A minha preocupação maior é com os colegas que estão trabalhando há quase 30 anos como cobrador, numa época em que não era necessário sequer ensino médio para a profissão. Se essas pessoas perderem o emprego, para onde vão?”, pergunta Jeyce. No fim de 2020, ainda antes do acordo de não demissão assinado entre os sindicatos, a onda generalizada de demissões que atingiu a categoria em Florianópolis a preocupou muito. “Eu me identifiquei sendo cobradora. A presença desse profissional é importante”, ressalta.

Para o Sintraturb, o sindicato que representa motoristas e cobradores, é necessário ressaltar que o papel do cobrador vai muito além de apenas cobrar a passagem. “Se pensarmos somente nessa função, realmente não precisaria retomar o profissional. Mas com o cobrador nos veículos tem menos casos de assédio sexual, por exemplo, pois tem quem fiscalize. Ele é necessário também em linhas que passam pela Apae [Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais] e pelos colégios, onde tem mais deficientes físicos [sic]. Também é necessário mantê-los nos coletivos que passam pelo morros, onde não há como puxar o freio de mão e atender o deficiente [sic]”, enfatiza Deonísio Linder, secretário de comunicação e imprensa do Sintraturb. “A nossa briga é para que o profissional volte aonde ele é preciso. Não é voltar por voltar. É voltar para manter a qualidade”.

Comissão adia solução

Para resolver as lacunas citadas por Deonísio, a Prefeitura de Florianópolis instituiu, por decreto, em agosto deste ano, uma comissão reunindo membros das secretarias municipais de Mobilidade e da Fazenda, dois membros do Consórcio Fênix e um do Sintraturb. A partir de estudos ancorados em filmagens e no tempo das viagens, o grupo de trabalho avalia a necessidade do retorno dos cobradores aos coletivos — ou da mudança de função deles para a de “auxiliares operacionais de transporte e mobilidade” — e como isso deverá ser aplicado.

“A necessidade de cobrar talvez não seja mais tão importante, pois tem caído muito o uso do dinheiro. Mas os serviços que ele pode prestar além disso são importantes”, reconhece o secretário municipal de Mobilidade e Planejamento Urbano de Florianópolis. Segundo Michel Mittmann, é estudada a possibilidade de os profissionais atuarem em trechos específicos, permitindo um único profissional intercambiar viagens; também o retorno de cobradores em linhas escolares, a realização de pesquisas de satisfação pelos agentes, entre outros.

A Comissão tinha 90 dias para encerrar os trabalhos, sendo que o primeiro relatório deveria ter sido entregue na primeira semana de novembro. No entanto, apenas duas reuniões foram realizadas no período, sendo que as divergências entre os métodos utilizados para a análise das viagens estão entre os motivos do atraso. Em uma reunião realizada no dia 10 de novembro, os participantes decidiram renovar o grupo de trabalho e o decreto. Até o fechamento desta reportagem, o documento não tinha sido publicado.

O decreto vigora apenas sobre os trabalhadores que atuam em Florianópolis. A discussão sobre a necessidade de retomar a presença dos cobradores nos coletivos intermunicipais, que circulam em mais de uma cidade da região da Grande Florianópolis — que inclui municípios como Palhoça, São José, Santo Amaro da Imperatriz, Biguaçu, entre outros –, está paralisada, segundo Deonísio. “A linha intermunicipal, onde quase 100% da categoria foi retirada, é regulada pelo governo do Estado. Nesse canal não há conversa, o governo não abriu [discussão do problema]. Nossa expectativa está em realizar o diálogo com a nova gestão”, destaca, referindo-se ao governo recém eleito em Santa Catarina em 2022, e que tomará posse em janeiro de 2023.

Luta de duas décadas

O cabo de guerra entre sindicato e patrões referente ao destino dos cobradores é antigo, segundo o Sintraturb. A primeira tentativa de retirar os trabalhadores que cobram as passagens ocorreu em 2003, com a implantação do sistema integrado em Florianópolis: quando a Capital de Santa Catarina passou a contar com corredores exclusivos de ônibus e terminais de integração. Após os trabalhadores paralisarem as atividades por três dias, a proposta foi derrubada.
Cinco anos mais tarde, em 2008, uma greve de três dias foi necessária para derrubar a tentativa de demitir os profissionais. Na época, o então prefeito Dário Berger recuou na proposta. Segundo o Sintraturb, a terceira ofensiva contra a categoria ocorreu em 2014, quando foi realizado o edital de contratação da empresa que vinha a assumir o sistema integrado de empresas de ônibus, vencido pelo Consórcio Fênix. No documento já estava previsto manter apenas 50% no quadro de cobradores. O sindicato respondeu com uma greve de três dias. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) decidiu a favor dos trabalhadores e determinou manter todos os cobradores.
“Eles aproveitaram a pandemia e o fato de os trabalhadores estarem em casa para realizar as mudanças”, critica Deonísio. O número de viagens no transporte público de Florianópolis se reduziu muito nos primeiros meses da pandemia. Ele destaca que realizar os estudos para garantir a nova função aos cobradores é urgente, tanto pela qualidade do transporte coletivo, como para manter o posto dos profissionais, tendo em vista que o acordo de não-demissão termina em abril.

Florianópolis não foi a única Capital brasileira a suprimir a função de cobrador de ônibus coletivo. Uma pesquisa realizada pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), em 2019, mostra que pelo menos 33 cidades brasileiras extinguiram totalmente este profissional de seus quadros.

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Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da UFSC

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