“O jornalismo profissional nunca teve tanto sentido como agora”

Zero
8 min readMar 28, 2024

Afirmação é de Fernando Mitre, diretor de Jornalismo da Band, que reforça o papel da profissão para a democracia em um cenário de fake news e avanço da Inteligência Artificial

Cintia de Oliveira (cintia.jor2024@gmail.com) e Robson Ribeiro (ribeiro.robson.grad@gmail.com)

Os estudantes de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tiveram a oportunidade de conhecer os bastidores da produção de um debate eleitoral pela maior referência da área. Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Rede Bandeirantes de Televisão, compartilhou, em Aula Magna, sua experiência de mais de três décadas à frente da produção dos debates na emissora, agora também reunidos em seu novo livro “Debate na veia: nos bastidores da TV — a Democracia no centro do jogo”, publicado pelas editoras Letras Selvagem e Kotter Editorial.

Em conversa com os alunos, o jornalista destaca que cada debate é resultado de meses de trabalho, envolvidos por tensão permanente, e chama atenção para a necessidade do jornalismo profissional no tratamento das informações. Mitre afirma que não dispensa a participação dos jornalistas para fazer perguntas nos debates. “Jornalistas fazem perguntas que interessam à população, eles representam com mais legitimidade o pensamento e as expectativas do público”, reforça.

Mitre viveu e cobriu de perto os principais acontecimentos da política brasileira. Durante sua carreira como repórter de jornal impresso, acompanhou o comício do dia 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro, que derrubou o presidente João Goulart e deu início aos 20 anos de ditadura militar no Brasil. Em 1989, durante a reabertura política, idealizou e produziu o primeiro debate entre candidatos à Presidência da República da história da televisão brasileira, com formato consolidado até hoje na Band.

Em entrevista ao Jornal Zero, Fernando Mitre fala sobre a importância dos debates em um cenário marcado pelo uso das redes sociais e do avanço da Inteligência Artificial(IA), destaca o perigo das informações distorcidas e conta suas expectativas para os próximos debates no Brasil.

Fernando Mitre falou sobre suas experiências em mais de três décadas à frente da produção de debates políticos na Band

Zero: Você foi um dos responsáveis por uma tradição de debates políticos na TV. Como é para você manter essa tradição há 42 anos?

Fernando Mitre: A Band já fazia debates quando eu cheguei. Havia feito um ou dois debates estaduais e pelo menos um municipal. Eu cheguei, então, à casa dos debates, a história já estava começando a ser escrita e eu fiz o primeiro debate presidencial. Aquilo foi muito importante, depois de anos de ditadura, ver um desfile democrático no estúdio da Band era absolutamente comovedor. Foi um momento de grande emoção para mim e de muita importância e emoção para o Brasil e para a democracia brasileira.

O Brasil passou recentemente por um grave ataque à democracia que resultou na invasão aos prédios dos três poderes no dia 8 de janeiro de 2023, em Brasília . Como você enxerga esse ataque?

Eu enxergo como um episódio que já foi superado. Nós tivemos a posição, hoje mais do que clara, de que os generais do Exército não entraram em nenhuma aventura. Não acho que a tentativa de golpe teria sucesso. Agora, mais uma vez, o Brasil está voltando à sua normalidade, não digo tranquilidade plena, porque a democracia é aquela planta tenra que tem que ser regada sempre. A democracia está aí e a Polícia Federal está fazendo um belo trabalho. Vamos ver a Justiça cumprindo seu papel até o fim.

Hoje, com as redes sociais, muitas pessoas, ao invés de assistirem os debates ao vivo, na íntegra, preferem ver recortes, que às vezes são descontextualizados. Esse comportamento prejudica a compreensão de todo o cenário?

Não. Acho que faz parte os candidatos e seus assessores usarem o debate, desde que eticamente, tirando aquilo que lhes interessa e expondo mais uma parte e menos outra. Se todos os candidatos têm essa liberdade, vão fazer isso sempre. O debate eleitoral é muito amplo e com o sistema de comunicação atual há uma complexidade e uma riqueza muito grande. Então, o que precisa mesmo é o jornalismo ficar vigilante contra as fake news, porque a fábrica de fake news em ano eleitoral fica a toda, e cabe ao jornalismo profissional, responsável e ético, dar uma resposta a isso.

Nos últimos anos tivemos um aumento de conteúdos produzidos por Inteligência Artificial que circulam na internet. Na esfera política, especialmente, o uso dos deepfakes (recurso que altera rosto, expressões e voz) se tornou comum. Qual o papel do debate televisivo como um momento em que os candidatos se apresentam ao eleitorado sem nenhum tipo de manipulação?

Se você está se referindo às bolhas radicais que estão aí, elas fazem o uso que costumam fazer de todos os fatos. A tendência é sempre burlar, fraudar o fato e isso vai acontecer sem dúvida. É preciso que haja uma reação, e tem havido, mas sem dúvida vamos ter que conviver com isso. Mas eu insisto, o papel do jornalismo profissional é muito mais importante do que era antes. Hoje é o jornalismo profissional que pode e deve ser procurado pelo eleitor interessado na informação correta e objetiva.

Como você enxerga o futuro da profissão em relação ao uso de Inteligência Artificial?

Isso pode ser benéfico para a humanidade ou pode ser terrível, depende do uso que se faz. Agora há legislação e o mundo e o Brasil estão discutindo isso. Mas essa ofensiva tecnológica veio para ficar e para evoluir. O desafio é muito grande, mas o trabalho básico de jornalismo não muda: capturar o fato, confirmar o fato, ver a veracidade da informação, transformar o fato em notícia e publicar no seu contexto adequado. Porque o fato não é a notícia, o fato é o núcleo da notícia. A notícia é um ser de linguagem, um fato narrado. E isso é um desafio técnico não tão simples quanto parece. Pegar o fato, capturá-lo e transformar em uma linguagem adequada exige uma certa competência, uma atenção e uma responsabilidade muito grande. O perigo da distorção está aí o tempo todo. Muitas vezes um “cochilo” pode fazer de uma notícia algo negativo e até perigoso, dependendo do erro que se comete. Há também a distorção voluntária, que é um crime e não há como tolerar.

As eleições municipais têm um papel fundamental para as próximas eleições presidenciais. Você fala em dar mais espaço para o jornalismo político local. Qual a importância disso?

O jornalismo, em ano eleitoral municipal, trabalha com dois patamares, um local e o outro nacional, e um dialoga com o outro. Nós temos certeza absoluta que as articulações, a movimentação, as circunstâncias e toda a evolução do trabalho político local neste ano tem a ver com as eleições de 2026. No Band Eleições, vamos fazer três edições locais para discutir em profundidade os grandes problemas das cidades: desde a segurança, passando pela saúde, o problema das enchentes, moradia, tratando de todas as questões urbanas que são gravíssimas. Mesmo porque, como dizia Franco Montoro: “ninguém mora na União, as pessoas moram nas cidades”. Tudo isso é ponto fundamental da cobertura eleitoral deste ano, mas também estamos de olho na visão nacional de tudo isso. Porque tem muita contradição, muita riqueza regionalista, muita coisa para explicar. O eleitor desavisado muitas vezes não entende ao ver uma aliança regional inteiramente em contradição com a posição nacional de dois partidos daquela aliança.

Em 2009, o Supremo Tribunal Federal derrubou a exigência de diploma para o exercício da profissão de Jornalista. Você acha que está na hora de repensar essa decisão em vista da difusão de fake news e boatos?

Eu defendo o diploma, sou a favor das faculdades, é um ambiente muito adequado para preparar o futuro jornalista. Isso pode ser aperfeiçoado nos cursos de pós-graduação. Pode-se discutir um profissional de outra área, com uma base universitária já realizada, entrar em um curso de pós-graduação e se credenciar a trabalhar setorialmente no jornalismo. Essa é uma possibilidade que eu vejo, mas a faculdade é fundamental e deve ser prestigiada e aperfeiçoada sempre.

Como você enxerga a cobertura política do jornalismo hoje em dia no Brasil? Nós temos feito um bom trabalho? E o que você considera essencial em um bom jornalista político?

O jornalismo na sua base não muda. O que muda são as circunstâncias, os novos ambientes, os novos instrumentais. Enfim, os novos desafios da evolução da sociedade que está cercando o jornalista. O jornalista tem três deveres básicos: o primeiro é o compromisso com a realidade factual; o segundo é o compromisso com o dimensionamento deste fato que foi tirado da realidade factual e terceiro é uma postura crítica avaliando o poder, os poderosos. O jornalista que atende esses três pontos está atendendo muito bem os princípios da profissão.

Você, como um jornalista de mídia impressa que foi para a TV, já tinha a ideia de levar esse formato antes de ser convidado pela Band?

Eu tinha uma certa fixação no debate do Nixon com o Kennedy [candidatos à presidência dos Estados Unidos em 1960]. Aquele debate foi muito interessante, não acho que definiu, mas ajudou a definir a eleição. Eu vi naquele debate muitas possibilidades. Um ficava sentado e outro em pé, falando, depois o outro sentava e o primeiro levantava para falar, achei que muita coisa poderia ser feita a partir daquilo. Era uma referência que eu tinha e quando cheguei na televisão, cheguei a uma conclusão óbvia. Vindo de um período de ditadura, nunca houve um debate para presidente da República, então a Band vai fazer esse primeiro debate! É um capítulo a mais na história da Band, na história política e na própria história do Brasil. Aquilo me ocorreu como uma necessidade até óbvia.

Você disse que o debate de 2022 foi um dos mais complexos já realizados pela Band. O que você espera do cenário político e dos debates para os próximos anos?

Do ponto de vista do debate, a Band deixou para o Brasil, e até para fora do país, um modelo absolutamente inesquecível: que foi o debate que nós realizamos na disputa estadual em São Paulo, entre o Tarcísio e o Haddad. Aquele debate teve regras excelentes, um ótimo cenário e excelente participação dos dois candidatos. Aquilo estava próximo da perfeição. Foi o melhor debate que já fiz, e eu já fiz mais de 50 junto com minha equipe. Isso fica, não há possibilidade de haver qualquer debate no Brasil sem levar em consideração este que fizemos e cujo modelo foi repetido no debate nacional. Acho que Bolsonaro e Lula não tiveram o mesmo desempenho que Tarcísio e Haddad, no entanto, o modelo está aí e não pode ser ignorado. Quanto à política brasileira, eu acredito na democracia, no debate democrático. Acredito também no movimento político municipal deste ano eleitoral que pode fazer evoluir o debate político no Brasil. Também espero que as ondas de ódio e as fake news sejam de alguma maneira superadas pela boa política, boa comunicação e, principalmente, pelo bom jornalismo.

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Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da UFSC