Pegadas: animais em situação de rua encontram na proteção animal chance de cuidado e sobrevivência

Por Letícia Coutinho e Júlia Matos

Ouvir incansáveis latidos e miados dentro de casa faz parte do dia a dia do Primeiro-Sargento do Exército, David Hagler, de 41 anos, assim como não são incomuns as ligações no celular do defensor e protetor animal, que revela receber pedidos diários para resgate ou auxílio de animais de rua e particulares — quando o animal possui um dono –, na Grande Florianópolis. Atualmente, com cerca de 18 “peludos” vivendo sob o mesmo teto que ele no bairro Estreito, região continental de Florianópolis, David ainda tem cerca de 70 bichos abrigados num terreno no bairro Rio Vermelho, no Norte da Ilha, onde está localizada a sede do projeto SOS Pets, administrado por ele e a amiga estudante de medicina veterinária, Thifany Espíndola.

Ainda longe da estrutura dos sonhos, a dupla que se uniu em prol dos animais abandonados ou negligenciados, soma histórias e dívidas financeiras para contar. Desde abril de 2018, quando a iniciativa de “só” divulgar a adoção de cães abandonados nasceu por incentivo de um amigo que hoje já não integra o projeto, eles precisaram encontrar caminhos para levar a ação para frente. Já em 2022, David e Thifany mantêm a “engrenagem rodando” por meio de vaquinhas online, sorteios e pedidos. À medida que usam o dinheiro, prestam contas para os seus colaboradores. “Já tentei fazer um tipo de caixa reserva, mas não dá, estamos sempre devendo [para as clínicas] “, relembra David.

Quatro anos depois, o amante de animais segue intercalando o trabalho no 63º Batalhão de Infantaria (63 BI) do Exército com o projeto dedicado à proteção animal. A única fonte de renda que opera em favor da causa se dá pelo Instagram, onde ele e a aliada contam com a solidariedade dos mais de 16 mil seguidores para quitar os gastos com ração, aluguel da sede — que chega a 2.000 m² –, medicamentos e procedimentos veterinários. No entanto, já houve ocasiões em que precisaram bancar custos com os pets do próprio bolso.

Ao mencionar os números referentes aos animais, a conta também cresce. Cerca de 500 bichos, entre cachorros, gatos e até cavalos, já passaram pela proteção e cuidados do SOS Pets. Destes, 150 eram casos graves de animais que necessitavam de cirurgia, foram atropelados ou afetados por alguma doença.

Da soma total, 95% dos resgatados passaram pelos processos de adoções bem sucedidas, uma vez que o índice de devoluções dos animais pela família adotante estacionou em cerca de 5%. No entanto, os bons momentos proporcionados pelas doações caminham junto aos pedidos de resgate que, segundo o protetor, só crescem. “Por mais que a gente salve, fica aquela sensação de impotência. Não conseguimos atender tudo, e é muito pedido de animal particular”. David ainda explica que, num cálculo rápido, os pedidos por auxílio se dividem em meio a meio entre animais que possuem tutores e animais “de rua”.

O papel do poder público frente ao abandono animal

Ainda que a ação das chamadas Organizações Não-Governamentais (ONGs) e Organizações da Sociedade Civil (OSCs) atuem no combate a esse tipo de descarte e na proteção de animais sem nenhum tipo de retorno financeiro, cabe lembrar o papel do poder público na causa.

Somente a cidade de Florianópolis registra de 20 a 30 mil animais vivendo sem lar, o que engloba cães comunitários ou em lares temporários. Segundo a Diretoria de Bem-Estar Animal (Dibea), não há um número exato da população de animais em situação de rua, uma vez que não há medidas de verificação como um “censo animal”. O número é calculado com base no crescimento populacional humano, que sugere, por sua vez, um crescimento populacional animal.

Há, inclusive, bairros da capital com mais registros de animais em vulnerabilidade. “Algumas comunidades se destacam pelo grande número de animais nas ruas ou sob tutela de pessoas em situação de vulnerabilidade ou que sofrem maus-tratos: Rio Vermelho, Tapera, Ingleses e Chico Mendes/Monte Cristo”, confirma a pasta pertencente à Prefeitura de Florianópolis.

Proteção em todos os cantos

Já em Palhoça, na Grande Florianópolis, a dona de casa Turana Ingrid dos Santos, de 44 anos, é outra cuidadora apaixonada pelos bichinhos e responsável por inúmeros resgates. Atualmente, possui 11 animais, entre gatos e cachorros, em sua casa. Todos foram adotados e apenas dois deles não foram resgatados. Tuca, como Turana é carinhosamente chamada pela família e amigos mais próximos, participou do Projeto Castração, iniciativa comandada pela médica veterinária Marina Moneta Dante, onde cirurgias de esterilização são realizadas a preço de custo, além do atendimento de animais que precisam de acompanhamento veterinário. Ela se afastou do projeto durante a pandemia da Covid-19, mas sua vocação para o cuidado com os animais nunca acabou. Inclusive, “parece correr atrás” dela, como brinca a cuidadora.

Exemplo disso foi o último episódio, há poucas semanas, durante uma viagem de carro à Laguna, no sul de Santa Catarina, com a família. Durante a longa espera no congestionamento de trânsito, o motorista do veículo à sua frente abriu uma das portas do carro e soltou um cachorro. Desesperada, Tuca não pensou duas vezes. “Parei a fila, liguei o pisca [alerta] e coloquei o cachorrinho que estava desesperado no carro”.

Todo esse esforço para dar uma vida melhor aos animais se reflete na quantidade de animais que Tuca já tirou das ruas. Amora, Milka, Simba, Pudim, Princesa, Amarelinho, Branquinha e Resgatada compartilham do cotidiano da tutora. Esta última, inclusive, ganhou esse nome pela maneira surpreendente como ela sobreviveu a um atropelamento. Os veterinários sugeriram eutanásia devido à gravidadade dos machucados, mas Turana não aceitou. A gatinha está há nove anos com sua “salvadora” e, diferente da previsão dos médicos, recuperou o movimento das pernas.

O amor de Tuca pelos animais se assemelha à paixão que o casal Érika Fraccaroli, de 43 anos, e Fabio Cesar de Mattos, de 45, também desenvolveu pelos seres de quatro patas. Desde abril de 2021, a dupla adotou seis animais, apesar de ter perdido uma cadela filhote neste ano por questões de saúde, o que os leva a cuidarem, atualmente, de cinco animais adotados.

“Em junho de 2022, vimos a postagem do David no Instagram. [Havia] cinco filhotes com pouco mais de um mês, abandonados na rua, na noite mais fria do ano. Cortou o coração. O primeiro impulso era servir de casa de passagem, mas, mesmo antes de pegar os filhotes, já sabíamos que eles ficariam definitivamente”.

A experiência abre precedentes para mostrar àqueles que têm receio em adotar filhotes, por conta da fase “agitada” dos pequenos que ainda estão aprendendo a se comportar de acordo com a rotina da casa e com a energia acumulada que pode, por vezes, refletir em móveis ou objetos danificados. Mesmo assim, Érika e Fabio ajustam o dia a dia e as tarefas cotidianas para manter a convivência.

“Qualquer adoção precisa de um planejamento mínimo: ração, vacinas, veterinário e medicamentos em caso de doença, e, principalmente, tempo e muito amor e paciência dos tutores. Durante a infância e adolescência do cão, que dura o primeiro ano de vida dele, tem que ter muita paciência e se informar sobre como lidar com o filhote. Tem muito conteúdo na internet. Um filhote impacta bastante na rotina da casa”.

Ainda assim, apesar de toda a nova rotina proporcionada pela chegada dos animais em um curto período de tempo, a gerente de vendas e o engenheiro de pré-vendas não se arrependem do ato de amor.

“Não nos arrependemos de adotar quatro filhotes que agora estão na fase de destruição… Roem os móveis, cavam o jardim e a horta e até acabaram nossas roseiras do jardim. Quando essa fase passar, a gente replanta e conserta, mas, por enquanto, a gente dá bronca na frente e ri sem eles verem, para continuar impondo respeito. É tanto amor que recebemos de volta que não tem como não amar”.

Proteção animal X saúde mental

Apesar do gesto em resgatar animais desamparados sem receber qualquer retorno financeiro em troca, os protetores de animais podem dizer ainda que “pagam a conta” com a própria saúde. A exposição a casos de maus-tratos e abandonos, além dos períodos de falta de doações de ração e dinheiro e dedicação integral aos projetos que desenvolvem, pode resultar em cansaço mental e exaustão.

Além disso, a necessidade em transformar a própria rotina para servir de mão de obra voltada à causa também pesa sobre os ombros daqueles que escolheram salvar os bichos abandonados ou negligenciados. “Entro no quartel 6h45. Acordo às 5h para fazer uma limpeza geral e cuidar dos animais, aí vou para o BI e volto na hora do almoço. Quando chego em casa, às 17h, ‘dou mais uma geral’, e antes de dormir também. Virou uma bola de neve, mas a responsabilidade é minha, eu sei, ninguém me obrigou”.

David garante não ter problemas de saúde mental ou física em decorrência dos cuidados dedicados aos pets, mas revela que encontra na prática de atividade física a válvula de escape para aliviar a cabeça. “Faço triathlon e tento dormir e acordar renovado, mas também já acordei com medo de olhar o celular. Eu conheço muitos protetores que têm problemas psicológicos ou depressão, e não é difícil chegar nesse ponto, porque é o dia inteiro vendo desgraça”.

“É 24 horas vivendo o projeto. Fico com o celular na mão desde a hora que acordo até a hora em que vou dormir”, conta David. O que motiva os protetores é, em resumo, o amor pelos animais e o combustível vindo dos adotantes como Fabio, Érika e Tuka. “Faço pelos bichinhos. Eu amo animais, e ver um animal sofrendo é muito ruim”, finaliza.

Como proceder ao encontrar um animal de rua

Mesmo rodeados de cidadãos que dão exemplo quando se trata do apoio à vida animal e acolhimento dos bichos abandonados, a sociedade ainda segue com dúvidas de como proceder em determinadas situações de negligência, uma vez que este papel é de todos.

Por isso, vale ressaltar que as “dibeas” [as diretorias de bem-estar animal] de cada municípios, ainda que com suas particularidades, oferecem orientações quanto às melhores formas de ajudar o animal, mas sua influência também possui um limite. O órgão de proteção age em situações de extrema violência, maus-tratos, atropelamento, situações graves de saúde em via pública ou ainda quando há iminência de morte. Porém, não é responsável pelo recolhimento de animais na rua considerados saudáveis, por exemplo, mas pode oferecer vantagens àqueles que buscam maneiras de ajudar.

E é aí que entram as boas ações: aquele que se deparar com um animal em cenário de abandono, pode recolhê-lo, buscar atendimento veterinário — muitas vezes disponibilizado pelo órgão de proteção gratuitamente — e acolhê-lo de forma permanente ou temporária, caso o animal não tenha dono ou esteja perdido.

Se o resgatista não puder manter um ou mais bichos em casa pelo período de tempo necessário, outra opção é pagar a castração. Havendo possibilidade, o resgate, castração e cuidados com o pós-operatório antes de devolvê-lo às ruas se torna uma boa opção para evitar que os animais que vivem sem um lar definitivo não procriem, evitando uma nova ninhada de filhotes abandonados.

Quando a adoção definitiva não é uma opção, é importante que haja, ainda, a divulgação do bichinho e seu caso, por meio das redes sociais, para que ele possa aumentar as chances de ser adotado.

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Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da UFSC

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