Quase R$ 10 milhões por quilômetro de obra viária

O valor é referente ao trecho de duplicação da rua Deputado Antônio Edu Vieira, no bairro Pantanal, em Florianópolis

Por Júlia Weiss

As obras pioram o trânsito na região. Foto: Júlia Weiss

A saga da duplicação da rua Deputado Antônio Edu Vieira continua. O quarto contrato de licitação foi firmado em junho deste ano, no valor de mais de R$ 12,8 milhões, para as obras de ampliação da Edu Vieira, que contorna parte do campus central da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis. Desse montante, R$ 5 milhões são provenientes do Governo do Estado e R$ 7,8 milhões do município. A contrapartida estadual foi firmada com a Secretaria de Estado da Fazenda (SEF) através do processo SEF 00002462/2022, que prevê a duplicação da rua Edu Vieira — segmento entre o início da rua João Pio Duarte Silva, no Córrego Grande, e a Avenida César Seara, no Pantanal –, um trecho de cerca de 1,3 km. O custo de R$ 10 milhões por quilômetro duplicado não considera os valores gastos nas licitações anteriores para o mesmo trecho.

As informações são desta placa, localizada próxima ao CDS da UFSC. Foto: Júlia Weiss

Para efeito de comparação, a obra de execução da terceira faixa da Via Expressa (BR-282), em Florianópolis, entregue em 2019, custou R$ 34 milhões, por um trecho de 5,6 km, o que representa cerca de R$ 6 milhões por quilômetro. Corrigido pela inflação do período — através do IPCA de janeiro de 2019 a setembro de 2022 –, esse valor é equivalente a R$ 7,6 milhões. Outra comparação que ajuda a dar ideia dos gastos dessa obra pode ser feita com a instalação de ciclovias na cidade de São Paulo (SP), em 2015, manchete de capa da revista Veja São Paulo, que então chamava atenção para o custo de R$ 650 mil por quilômetro, o que em valores atuais seria o equivalente a R$ 1,25 milhão. Na época, a notícia provocou comoção da população, sendo tratada como um escândalo.

R$ 97 milhões em licitações

Durante esses anos foram feitos quatro processos licitatórios e ocorreram três paralisações, sendo a maior delas entre abril de 2020 e abril de 2021, durante o período da pandemia da Covid-19. Por ser um trecho que permeia parte do campus Trindade da UFSC, a Prefeitura Municipal de Florianópolis e a Universidade estabeleceram diálogos desde 2011. Inicialmente, a instituição foi contra ceder a área, mas em 2016 foram entregues 33.170,12 m2 do Campus, em Florianópolis, para implantação, pelo município, da obra de ampliação. Um terreno desse tamanho, no bairro do Córrego Grande, custaria por volta de R$ 45 milhões no mercado imobiliário.

Este é o trecho do projeto atual que está sendo ampliado. Foto: Divulgação DPAE/UFSC

Conforme Hélio Quadros, prefeito da UFSC, houve momentos em que a Prefeitura de Florianópolis e a Universidade tiveram relações mais tranquilas e outros mais tensos, como quando a Universidade fez cobranças mais duras sobre o cumprimento dos cronogramas e dos prazos. A previsão inicial era de que a obra fosse mais ampla e estivesse pronta em 2019, criando um anel viário de 7,4 quilômetros do Córrego Grande ao Terminal de Integração do Centro (Ticen). Mas essa ampliação se tornou inviável por conta do excesso de desapropriações que seriam necessárias. O custo da duplicação de toda a extensão da Rua Deputado Antônio Edu Vieira, com 1,9 km, era estimado em R$ 36 milhões de reais.

Este era o projeto inicial do anel viário, entre os bairros Trindade e Centro. Foto: Divulgação/PMF

Entre os contratos anteriores para a obra, o primeiro foi de R$ 37,6 milhões, o segundo de R$ 29 milhões e o penúltimo, no valor de R$ 8,2 milhões. Somadas, as quatro licitações totalizam R$ 74 milhões, valores que corrigidos pela inflação do período equivalem a um custo de R$ 96,8 milhões. Porém, nem todo esse montante foi de fato gasto, pois os contratos foram finalizados antes do prazo e os valores só são pagos às empresas conforme o andamento das obras e não previamente.

O primeiro contrato foi feito com a empreiteira Consórcio Alves Ribeiro/Conpesa, em maio de 2016, e tinha o objetivo de executar as obras do anel viário com um prazo de três anos. Porém, o contrato foi rescindido em 2017 pelo prefeito de Florianópolis, na época, Gean Loureiro, porque a empresa queria um aditivo de R$ 3,2 milhões para a execução das obras do trecho.

Durante o período de vigência do contrato, foi feito o que estava previsto para o primeiro e o segundo segmentos do trecho. No primeiro segmento, dos 300 metros de extensão entre a rótula da avenida Professor Henrique da Silva Fontes e o início da rua João Pio Duarte Silva, 200 metros da pista de concreto ficaram prontos. No segundo segmento, cerca de um quilômetro, da rua João Pio Duarte Silva até a Eletrosul, foi concluída a parte de drenagem e a terraplenagem.

Em março de 2019, a obra foi reiniciada com a MJRE Construtora Ltda. A empresa foi contratada também para a construção do Anel Viário. O prazo era de dois anos, mas em 2020, o contrato também foi rompido, porque a empresa declarou falência. Nesse tempo foi executado quase todo o serviço de drenagem e terraplanagem do primeiro e segundo segmentos.

A EBRAX retomou a obra em julho de 2021. A contratação da empresa visava a execução das obras de duplicação entre a rua João Pio Duarte Silva e a avenida César Seara, com um prazo de seis meses. Contudo, em janeiro de 2022, a prefeitura de Florianópolis cancelou o contrato. A justificativa seria que a empresa não teria cumprido o cronograma estipulado. Não se tem informações do que de fato foi feito nesse período.

Desde maio deste ano até o momento, quem executa a obra é a empresa Planaterra Terraplanagem e Pavimentação Ltda., para a finalização da duplicação do trecho, com um prazo de oito meses.

Transtornos e promessas de prazo

Para além do alto custo da obra, ela tem atrapalhado a vida de moradores do Pantanal. Lauren Bauermann, estudante de Farmácia da UFSC e moradora do bairro, diz que mesmo o caminho mais curto para ela ir para casa, pela rua Edu Vieira, tem sido evitado na maior parte das vezes, especialmente à noite. “Um dos principais problemas que eu vejo é a dificuldade de caminhar de noite por falta de segurança e também por falta de estrutura, por exemplo, não tem calçadas muito acessíveis”. Lauren também fala que quando anda pela Edu Vieira em dias de chuva formam-se poças devido aos buracos na rua, e que os carros, ao passarem por cima delas, molham os pedestres. “Dão um banho nas pessoas que estão caminhando na calçada”.

A maior parte do trajeto está com a calçada quebrada. Foto: Júlia Weiss

Luisa Borges, estudante de Economia da UFSC, costuma caminhar pela região e afirma que tem sido cada vez mais complicado percorrer o trecho em meio a máquinas e caminhões para chegar à Universidade. “É um pouco inseguro porque tu nunca sabes quando o trator vai vir pra cima de ti ou não”.

Segundo a Secretaria de Infraestrutura de Florianópolis, atualmente estão em andamento os serviços de terraplanagem e de pavimento asfáltico, ainda serão implantadas ciclovias bidirecionais no lado da UFSC — com trecho de 400 metros concretado –, de calçada margeando essa estrutura cicloviária, de meio-fios e de cercas. Os serviços de drenagem previstos nessa área já estão “bem avançados”, conforme a Secretaria.

O engenheiro fiscal da obra, Ricardo Junckes, garantiu que até o final de outubro toda a calçada em frente ao Centro de Desportos (CDS) até o Centro Tecnológico (CTC) deveria ficar pronta, facilitando o tráfego de pedestres. Ricardo disse também que a entrega completa da obra está prevista em contrato para o final de janeiro de 2023. Hélio, prefeito da UFSC, acredita que ela pode se estender até fevereiro do mesmo ano.

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Jornal-laboratório do curso de Jornalismo da UFSC

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